O desafio do Europeu para os portugueses em Lousada

  • Duas provas completas, em dois dias, deixam pouca margem para erros e tornam a gestão da mecânica e dos pneus ainda mais importante;
  • Calor acrescenta dificuldade a um fim de semana particularmente exigente para pilotos, carros e equipas;
  • Portugueses da RX1 e RX3 antecipam uma autêntica corrida contra o tempo entre mangas e entre as duas jornadas.

Duas jornadas, duas provas completas e muito pouco tempo para recuperar. A ronda dupla que este fim de semana encerra o Campeonato da Europa FIA de Ralicross em Lousada representa um desafio que vai muito além daquilo que acontece em pista. Gerir a mecânica do carro, os pneus e o próprio esforço físico podem ser tão importantes como encontrar os últimos décimos de segundo.

A primeira prova disputa-se já este sábado e qualquer problema mecânico ou incidente mais sério poderá deixar marcas para domingo. Com temperaturas elevadas em Lousada e uma competição disputada ao limite, os pilotos portugueses da RX1 e RX3 reconhecem que será necessário encontrar um difícil equilíbrio, entre atacar desde a primeira manga e preservar a mecânica para chegar ao final das duas jornadas.

“Tem de ser luta desde o início”

Na Euro RX1, a categoria principal deste Europeu, José Oliveira conhece bem a dimensão do desafio. O piloto do Peugeot 208 WRX reconhece que a experiência acumulada no traçado de Lousada pode constituir uma vantagem, embora tenha consciência do nível dos adversários que enfrenta no Europeu, que está a disputar, este ano, pela primeira vez, após três títulos nacionais.

“Sou um privilegiado porque, se calhar, conheço melhor esta pista do que qualquer dos nossos principais adversários na categoria. Ainda assim, temos sempre a perfeita noção de que lutamos com armas diferentes quando estamos a competir diretamente com pilotos de topo”, afirma.

Numa ronda dupla, porém, a gestão dos pneus assume uma importância acrescida, especialmente perante as temperaturas elevadas que se fazem sentir, este fim de semana, em Lousada. O regulamento limita o número de pneus disponíveis em cada ronda, obrigando as equipas a gerir entre pneus novos e usados ao longo do fim de semana.

“É bastante difícil, quer em termos mecânicos, mas sobretudo ao nível da gestão de pneus, porque nós temos limitações no uso de pneus. Ainda por cima, com elevadas temperaturas como as que se esperam neste fim de semana, é extremamente complicado conseguirmos gerir, de uma forma eficaz, o uso dos pneus”, explica José Oliveira.

Poupar em pista, contudo, é mais fácil de planear antes de entrar no carro do que executar quando se apagam as luzes. “Nós dizemos sempre que vamos gerir, mas, na verdade, depois de estar dentro do carro, com o capacete, com as luvas e preparados para partir, a gestão que se faz é muito limitada.”

A competitividade da RX1 deixa pouca margem para cálculos. “Temos de lutar por cada posição, porque senão não conseguimos atingir os quartos de final, as meias-finais, seja o que for. Tem de ser luta desde o início, de outra forma é impossível lá chegar.”

João Ribeiro: “Os heróis desta gestão de tempo são os mecânicos”

Também João Ribeiro, atual Campeão Europeu de RX3 e esta temporada a competir na RX1 com um Hyundai i20 N RX, coloca grande parte do desafio nas mãos daqueles que raramente aparecem perante o público: os mecânicos.

“É muito trabalho. Esta gente que está aqui por trás de mim é que vai ser o grande suporte. Eles é que são os heróis desta gestão de tempo e desta corrida contra o tempo que vai haver entre mangas neste fim de semana”, sublinha.

Com cerca de 650 cavalos, um Supercar exige atenção permanente e os intervalos disponíveis deixam pouca margem. “É um carro muito exigente a nível de mecânica. Temos quatro pessoas para um carro, dá quase uma pessoa por roda. Acho que estamos preparados para esse desafio, mas é algo que vamos tentar gerir da melhor forma.”

João Ribeiro sentiu essa realidade logo nos treinos livres desta sexta-feira. Uma avaria no Hyundai i20 N RX, logo na primeira sessão, permitiu-lhe completar apenas duas voltas e deixou a equipa imediatamente numa corrida contra o tempo, impedindo-o de participar na segunda sessão, precisamente aquela que decorreu sob iluminação artificial.

Os pneus voltam a entrar nas contas. João Ribeiro explica que dispõe de oito pneus para a prova, sendo necessário conjugar material novo com pneus usados provenientes da corrida anterior. A preocupação foi visível logo nos treinos livres, quando a equipa decidiu não utilizar pneus novos.

“Ontem, nos treinos livres, optámos por não usar pneus novos por uma questão de gestão. Foi exatamente essa gestão que me traiu em França, porque depois, quando precisei de defender ou atacar, já não ´tinha´ carro. Hoje vamos tentar ser inteligentes nesse aspeto e decidir o melhor a fazer com os pneus. E, claro, é uma manga de cada vez.”

Tiago Ferreira: evitar que sábado comprometa domingo

Na RX3, Tiago Ferreira resume de forma particularmente clara o dilema colocado pela jornada dupla: é preciso conseguir um resultado, este sábado, sem colocar em causa a possibilidade de voltar a competir no domingo.

“Vai ser um fim de semana complicado. Temos de entrar com cabeça, tentar não entrar em grandes lutas, pois são dois dias de corrida. Fazer estragos no carro pode não nos deixar correr no segundo dia.”

O português pretende, por isso, utilizar as primeiras mangas também para perceber onde se encontra relativamente aos adversários. “Vamos tentar apostar um bocado logo na primeira manga, ver como está a competitividade e o ritmo de todos os pilotos.”

De resto, há um ponto particularmente sensível: a primeira curva, tradicionalmente um dos momentos de maior risco numa corrida de Ralicross. “Temos de ter um bocado de precaução na primeira curva porque é sempre onde há mais danos nos carros. Se conseguirmos fazer uma boa primeira manga, depois é gerir”, explica.

Apesar de todas as cautelas, o objetivo permanece ambicioso. “O importante é pontuar e, claro, fazer um grande resultado em casa. Estamos em Lousada, na nossa terra, e é sempre bom fazer um bom resultado.”

“Dentro dos carros é muito calor”

Para André Sousa, também a competir na categoria RX3, a palavra de ordem volta a ser gestão. “Vamos tentar gerir da melhor maneira, não esgotar todas as soluções logo na primeira corrida. Ver como corre esta primeira prova e amanhã é outro dia.”

A temperatura elevada acrescenta outra dimensão ao desafio. Se o calor influencia pneus e mecânica, também coloca à prova a resistência física dos pilotos dentro de habitáculos onde as temperaturas são ainda superiores.

“Muito calor, mesmo muito calor. É verão autêntico. As pessoas não têm noção do calor que temos lá dentro”, salienta André Sousa. “Vamos tentar gerir essa parte também, que é muito importante, e dar o nosso melhor para honrar a nossa bandeira.”

O fim de semana reserva-lhe ainda uma particularidade: vai dividir a grelha da RX3 com o irmão Rogério Sousa, que não disputa regularmente o Europeu. “É maravilhoso. É o meu irmão, é o meu amigo. É um orgulho muito grande e que ganhe o melhor”, afirma André, garantindo que a competição não altera a relação entre ambos. “Apoiamo-nos um ao outro, corrigimos o que houver para corrigir, sempre apoiando um ao outro. A família torce pelos dois e, no fim, fazemos a festa todos juntos.”

Uma corrida dentro da corrida

Entre o início das qualificações deste sábado e a última bandeira de xadrez de domingo, a corrida não termina quando os carros abandonam a pista. Nas boxes, mecânicos e engenheiros terão de verificar, reparar e voltar a preparar máquinas sujeitas à intensidade própria do Ralicross, enquanto pilotos e equipas fazem contas aos pneus disponíveis e procuram encontrar o equilíbrio entre risco e resultado.

É esse o dilema que atravessa todo o paddock, independentemente de cada categoria: há duas jornadas para disputar e é preciso gerir, mas a competitividade do Europeu não permite levantar o pé. Um toque, uma avaria ou uma escolha errada de pneus este sábado pode condicionar não apenas uma corrida, mas todo o fim de semana.

José Oliveira resume bem aquilo que espera os pilotos quando se apagarem as luzes: “Temos de lutar por cada posição. Tem de ser luta desde o início, de outra forma é impossível lá chegar.”

Em Lousada, serão duas corridas em dois dias. Mas, para pilotos, mecânicos e equipas, a corrida contra o tempo já começou. E só terminará com a última bandeira de xadrez de domingo.

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