Três especialistas defenderam hoje, em Matosinhos, que o debate público deveria focar-se mais nas infraestruturas e papel do automóvel e não tanto sobre a obrigatoriedade dos capacetes para utilizadores de bicicletas elétricas, que ainda não está em vigor.
“Eu vejo muito desperdício de tempo a focarmo-nos politicamente, e a sociedade toda, num tema que – não deixo de dizer que não seja importante, que é – se resolvia mais se se conseguissem focar naquilo que dá origem à grande sinistralidade rodoviária, que são os carros”, disse à Lusa Paula Teles, especialista em mobilidade urbana e presidente executiva da empresa MPT.
Falando à margem do debate “A Bicicleta como Motor da Mobilidade e do Turismo”, que decorreu hoje em Matosinhos em antecipação da Bikes Summit, que irá decorrer em abril de 2027, a especialista disse entender que as pessoas se sintam mais seguras a usar capacete, porque o país “não tem o trabalho feito a nível do desenho urbano”.
“Temos cidades no nosso país que têm 80% de pessoas a andarem todos os dias, durante o dia, a fazer deslocações casa-trabalho e casa-escola de automóvel. Temos cidades dessas no país e em que se morre muito, não é? Sabemos a taxa de sinistralidade no país”, apontou.
Em 2025, em Portugal, registaram-se 39.007 acidentes com vítimas, das quais 350 vítimas mortais, 2.863 feridos graves e 45.724 ligeiros, segundo a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR).
“Nós temos que andar mais a pé, de bicicleta e de transporte público. De forma integrada e, portanto, temos que tomar medidas para, primeiro, reduzir a velocidade dos automóveis”, até “antes de eliminar ou de resgatar o espaço automóvel” com medidas “‘pop-up’, medidas táticas, medidas em que não se gasta muito dinheiro e que até podem ter uma intenção provisória” com “flexibilidade para mudança”.
Para Paula Teles, “se a cidade for uma cidade de velocidade 30 [quilómetros por hora]” é possível “andar melhor de bicicleta e até diria trotinete”.
Para Nuno Lavrador, presidente executivo da UpNorth, empresa especializada em contagem de tráfego de bicicletas, “devia-se dar prioridade à infraestrutura em si, melhorar a segurança de quem quer andar de bicicleta, seja uma convencional ou uma elétrica”.
“Existem diversas formas de, mesmo em locais onde não é possível construir vias segregadas, fazer acalmia de tráfego”, apontou, como “criar obstáculos, nivelar a faixa de rodagem com os passeios, maior fiscalização de velocidades e de estacionamentos”.
Também Paulo Guerra dos Santos, do projeto Ecovias de Portugal, considera que “o debate tem que estar no automóvel”, pois quando há “uma rua fechada ao trânsito (…) ninguém morre ali atropelado”, pois “as pessoas, pela segurança, andam lá de bicicleta”.
Para o especialista, “o problema é que o automóvel gera milhares de milhões de euros em receita todos os anos para uma série de agentes, incluindo o Estado, que é um interessado aqui”, pois “recebe milhares de milhões na venda de automóveis, nos impostos sobre os combustíveis, taxas disto e daquilo, impostos de circulação, e depois não os usa para o nosso próprio bem”.
“Eu, quando estaciono o meu carro, passo a ser um peão, mas tenho mais condições para andar de carro do que para andar a pé. Porquê? Porque é que eu sou tratado de forma diferente em função da forma como estou a deslocar?”, questionou.
Quanto aos capacetes, Paula Teles defendeu o uso obrigatório em bicicletas, porque “evitar uma morte é suficiente”, Nuno Lavrador considera que pode “limitar muito a utilização de quem quer usar” e Paulo Guerra dos Santos considera que seria “mais um elemento para não estimular a andar de bicicleta”.
A aprovação do uso do capacete em bicicletas elétricas colocaria Portugal como o único país da União Europeia com tal medida.
A proposta para uso obrigatório de capacete em trotinetes e bicicletas elétricas foi aprovada na generalidade no parlamento mas ainda pode ser alterada após a discussão na especialidade, não estando ainda em vigor.
Lusa
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