REPORTAGEM: Rali de Portugal: Apego à terra e Mundial de ralis mantêm viva a aldeia do Sardal

Na classificativa de Arganil do Rali de Portugal, um dos ‘segredos’ mais mal guardados é o ‘gancho’ do Sardal, junto à aldeia cuja população soma ao apego à terra a devoção pela prova portuguesa do Mundial de ralis (WRC).

E o piloto francês Sebastien Ogier, líder da 59ª edição do Rali de Portugal, nove vezes campeão mundial e atual detentor do título, tem, no Sardal, imagina-se que sem o saber, fãs acérrimos.

Tudo à custa de um infortúnio, no caso, a desistência depois de dois furos, em 2022, precisamente no mesmo local onde acabou acarinhado pela população e onde, hoje, mais de uma centena de pessoas marcou presença, para o ver passar e aos restantes pilotos do WRC.

“Temos de lhe dizer adeus, será que nos vai reconhecer? Vamos fazer barulho”, propôs Paula Pereira Carvalho, da direção da Comissão de Melhoramentos do Sardal, aparentemente indiferente à velocidade, concentração e olhos na estrada com que o francês, sete vezes vencedor do Rali de Portugal, por ali passou, por duas vezes, como é habitual no troço de Arganil.

Na altura da desistência de Ogier e até ao ano passado, o ‘gancho’ do Sardal cumpria-se a descer, agora foi feito a subir – e que subida – desde a curva situada umas centenas de metros acima da aldeia encaixada num vale profundo, até lá bem ao cimo das vertentes da serra do Açor.

Numa barreira à esquerda do ‘gancho’, está uma pequena zona delimitada por fitas verdes e a indicação ‘ZR’ – diversa das zonas espetáculos (ZE) oficiais, mas também das recentes zonas de público (ZP), de inspiração e promoção municipal.

No local, conforme constatou a reportagem da agência Lusa, ninguém sabia, ninguém soube, explicar o que quer dizer a tal ZR, não que isso tenha constituído um problema: batiza-se e pronto, e a pequena área de público logo ficou definida por Zona Reservada (ao Sardal e amigos).

Ao lado, Paulo Pereira, primo de Paula – há quem diga que na aldeia todos são familiares uns dos outros –, enalteceu, com o contributo da mulher, Filipa Gonçalves, os momentos de encontro e partilha de experiências que permitem “celebrar a aldeia”.

“As nossas origens estão aqui, tentamos promover estes momentos de encontro, de partilha de experiências, o rali é um momento muito forte, a festa de verão [em agosto] é outro momento muito forte. Tentamos que as pessoas se juntem para celebrar a aldeia à qual todos estamos ligados”, vincou Filipa.

A família, que vive e trabalha em Lisboa, tem casa no Sardal (onde tenta regressar, pelo menos, uma vez por mês) e Paulo defende a paz e a calmaria – que por ali é uma benesse para quem tem de lidar, todos os dias, com o bulício da capital.

Já residentes no Sardal são só três – o casal António e Teresa, ele natural da aldeia, ela de Góis – e o senhor Eduardo. Dali oriundos ou descendentes de nativos são muitos mais, umas poucas centenas, mesmo se a última vez que uma criança ali nasceu foi há mais de 40 anos.

E se a relação com o Rali de Portugal é bastante antiga, remontando aos “tempos áureos” das classificativas de Arganil, nas suas várias versões, não se pense que o Sardal não inova nesse particular: em 2021 foi criado o “Manual Sardalense” do Rali de Portugal, um conjunto de instruções, com regras a observar, acessos e outras informações para que a aldeia possa usufruir, da melhor maneira, da sua paixão.

Um ano mais tarde, em 2022, Rodrigo, filho de Paula, atualizou o manual, mesmo se não é aficionado de automóveis e prefira o sossego da casa da aldeia ao barulho e ao pó levantado pelos carros de competição.

Lusa

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