Ni Amorim sobre o CPR’2025 | “FPAK não pode alterar leis ou desrespeitar decisões do Tribunal”

Ni Amorim e o veredito do TAD sobre o CPR’2025: “FPAK não pode alterar as leis do Governo ou desrespeitar as decisões do Tribunal”

Muito embora considere incompreensível a dualidade de critério do Tribunal Arbitral do Desporto (TAD), relativa à recente decisão de atribuir o título de campeão de 2025 no Campeonato de Portugal de Ralis (CPR) a Armindo Araújo, em perfeito antagonismo com o sucedido em 2024 no caso de Kris Meeke, Ni Amorim confessa-se num beco sem saída, face à necessidade de “cumprir a legislação em vigor”, sob pena de a entidade federativa ser sancionada ao mais alto nível. É que a perda do estatuto de Utilidade Pública já esteve em equação, pelo menos em jeito de aviso…. O presidente da FPAK, interpelado pelos jornalistas à margem da apresentação, em Guimarães, do Rally 6 Cities North of Portugal, não deixou de tecer alguns reparos a quem defende, perante a polémica do título atribuído há dois anos a Kris Meeke, a adoção da “antiga regra” do vencedor do campeonato… em vez de campeão nacional ou de campeão de Portugal. “Os tempos mudaram e esses regulamentos fazem parte do passado…”, vincou.
Ni Amorim não esconde, depois de toda a agitação gerada quando um piloto estrangeiro concluiu o CPR com maior número de pontos e lhe foi atribuído o título por decisão judicial, que esperava serenidade e o fim de todos os equívocos em torno da regulamentação. Mas não…
“Fui colhido de surpresa com a recente decisão do Tribunal Arbitral do Desporto (TAD) de atribuir o título de 2025 a Armindo Araújo, em detrimento de Dani Sordo, porque no ano anterior a FPAK havia sido intimada pelo mesmo TAD a entregar o título ao Kris Meeke. Na época passada o Dani Sordo sagrou-se vencedor do CPR, era um caso exatamente igual ao do ano anterior, direi que são duas almas gémeas – dois pilotos da Comunidade Económica Europeia e em igualdade de circunstâncias. O que nós [FPAK] fizemos foi seguir a decisão assumida pelo mesmo TAD no ano anterior, atribuindo o título ao Dani Sordo. Como é possível o mesmo Tribunal julgar dois casos exatamente iguais e ter duas posições diametralmente opostas, de 2024 para 2025? De qualquer modo, não resta à FPAK outra alternativa que não seja cumprir a determinação do TAD e nem irá, logicamente, contestá-la. Haverá outras contestações, por certo, e vai demorar anos a saber-se quem serão os campeões. Ambas as partes, quer o Armindo Araújo quer o Dani Sordo, pelo lado da Hyundai Portugal, contestam, daí que o assunto transite agora para patamares superiores da Justiça”.

“OS TEMPOS EVOLUEM E AS REGULAMENTAÇÕES TAMBÉM”

– Como presidente da FPAK sente-se, por vezes, e na sequência desta polémica em torno do título de campeão de ralis, numa posição ingrata, nomeadamente face à opinião pública?
“Já li comentários de algumas pessoas que, por desconhecimento, julgo, ou então ignorância ou mesmo má fé, diziam que a questão dos títulos se resolvia facilmente recorrendo a uma regra existente na regulamentação: a do vencedor do Campeonato Nacional. E que se deveria atribuir a vitória no Campeonato de Portugal ao piloto estrangeiro e o título de Campeão de Portugal ao português melhor classificado. Quem exprime tal opinião talvez desconheça que os estatutos e os regulamentos das federações desportivas são monitorizados em permanência por um organismo como o Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ). Entre as várias funções que estão atribuídas a esse organismo do Estado está a fiscalização e a atualização dos regulamentos”.
Ni Amorim, ainda a propósito da “nova ordem” que rege o desporto automóvel e não só, reforça a nova realidade dos regulamentos nada tem a ver com o passado…
“Muita gente comenta que foi designando ‘vencedor do campeonato’ que se resolveu, em matéria de títulos, o problema do campeão no tempo do Giovanni Salvi ou do Robert Giannone, mas esses factos datam do tempo das calendas gregas… Os tempos evoluem e as regulamentações também. O que era nessa época já não é agora, não é permitido e já nem é possível. Temos que cumprir e respeitar as decisões do Tribunal. A FPAK não recorreu de qualquer das decisões do TAD e, por discordar, poderia fazê-lo, mas não foi esse o entendimento da Direção”.
– O incumprimento do que está consignado na Lei de Bases do Desporto, de que resulta a regulamentação das diferentes federações desportivas, poderia resultar em quê para a FPAK?
“Em 2023 recebemos um ofício do IPDJ em que a FPAK era intimada a retirar a palavra vencedor do Campeonato de Portugal na altura em que o Craig Breen veio disputar o campeonato, porque na ótica daquele organismo tal designação não era legal. E mais: tínhamos 15 dias para o fazer, sob pena de a FPAK perder o estatuto de Utilidade Pública. Portanto, fico incrédulo quando leio comentários, inclusive de pessoas que pelas funções que já desempenharam deviam estar informadas sobre a regulamentação atual, como se tudo isto fosse simples e fácil de resolver… à revelia da legislação em vigor. Sinceramente, hoje procederia exatamente da mesma maneira, pois se o Tribunal decretou a atribuição do título ao Kris Meeke em 2024, no ano seguinte a FPAK adotou procedimento idêntico em relação ao Dani Sordo. Não há, no meu ponto de vista, outra interpretação a fazer”.

“OS PILOTOS ESTRANGEIROS ELEVAM O NÍVEL DO CPR”

– Considera que é positiva para o Campeonato de Portugal de Ralis a participação de pilotos estrangeiros de nomeada, como o Kris Meeke e Dani Sordo, ou nem por isso?
“Muito embora a minha opinião pessoal não seja relevante, mas sim a da FPAK, direi que considero muito importante que os pilotos estrangeiros venham disputar o Campeonato de Portugal de Ralis, porque elevam o nível e os jovens que estão a começar ficam a saber qual é a referência se querem um dia competir com os melhores e a que nível de andamento necessitam chegar para ser ganhadores. Está visto que os pilotos portugueses ainda estão um furo ou dois abaixo dos internacionais que têm competido cá”.
– O que é que a FPAK tem feito para sensibilizar o ministério governamental que tutela o Desporto a implementar uma lei que salvaguarde qualquer tipo de polémico na atribuição do título de campeão nos ralis?
“Desde o ano [2023] do malogrado Craig Breen que a FPAK colheu informação, junto do então Secretário de Estado da Juventude e Desporto, sobre qual o caminho a seguir. A FPAK não tem competência para alterar as leis. É uma injustiça nós, portugueses, irmos lá fora competir e podermos ser coroados campeões e um estrangeiro da Comunidade Europeia competir em Portugal e ser-lhe vedada a atribuição do título de campeão quando é, neste caso, o piloto mais pontuado, como sucedeu em 2025 com o Dani Sordo. Não entra na cabeça de ninguém e, portanto, a FPAK fez sentir isso a quem de direito, que era o IPDJ e o Secretário de Estado do Desporto. O Ministério Público esteve envolvido na questão, levantaram-se questões sobre a inconstitucionalidade da lei, daí que a mesma tenha sido levada ao Tribunal Constitucional. A FPAK fez aquilo que lhe competia, mas não pode alterar leis do Governo nem deixar de cumprir as decisões do Tribunal. Na minha opinião, foi dada uma má imagem do país e do seu desporto automóvel. Não ficamos bem na fotografia ao não atribuir os títulos, ainda que, como digo, é necessário ver que ambos os pilotos recorreram para instâncias superiores. Portanto, vamos ver o que isso vai dar…”

“É UMA PERDA BRUTAL PARA O PAÍS NÃO HAVER RALLY DE PORTUGAL”

– A exclusão do Rally de Portugal do WRC’2027 foi um duro golpe?
“Foi uma notícia inesperada e triste, porque nem eu nem, provavelmente, ninguém em Portugal estaria à espera e ela surgiu no último dia da definição do calendário do WRC’2027. Falei com o presidente do ACP, Carlos Barbosa, trocámos emails com a FIA e com o Promotor. Sendo eu um otimista por natureza, acho que o Rally de Portugal poderá regressar, embora seja sempre difícil quando se é excluído, mas não está fora de questão que volte em 2028. Basta ver que Espanha tinha o Rali da Catalunha durante muitos anos no WRC, depois esteve fora e voltou agora, não na Catalunha, mas nas Canárias. Portanto, em relação a Portugal espero e desejo que aconteça algo semelhante. É uma perda brutal para o nosso país não haver Rally de Portugal”.

FÓRMULA 1: “GP PORTUGAL VAI TER A MAIOR ENCHENTE DE SEMPRE EM PORTIMÃO”

– O regresso da Fórmula 1 a Portugal em junho de 2027 foi uma excelente notícia…
“A Fórmula 1 em Portimão no próximo ano foi uma excelente notícia e, na verdade, a FPAK não tem mérito algum nessa conquista. Ele cabe por inteiro ao Governo, que em boa hora se lembrou que seria um bom investimento para o país e também da excelência organizativa do Autódromo Internacional do Algarve”.
– A FPAK foi colocada ao corrente das diligências que estavam a ser feitas pelo Governo?
“Não, eu apenas soube da notícia do regresso da Fórmula 1 a Portugal quando ouvi o Primeiro Ministro anunciá-lo na Festa do Pontal. E na segunda-feira seguinte eu já estava em contacto com o senhor Secretário de Estado do Turismo, que teve a amabilidade de me convidar para a apresentação, em Inglaterra, do Grande Prémio de Portugal, mas eu não pude estar presente devido a outro compromisso internacional na mesma data. Contudo, a partir daí estamos a trabalhar com o Autódromo do Algarve e ainda na semana passada estive em Portimão. Direi que vai ser um espetáculo grandioso, a lotação do recinto será aumentada e haverá boas surpresas para acolher entre 80 a 90 mil pessoas. Não tenho dúvida de que vai ser registada a maior enchente de sempre na Fórmula 1 em Portimão, a não ser que surja qualquer questão geopolítica que a todos nos surpreenda…”

Enviar Comentário

Scroll to Top

Newsletter

Subscreva a Nossa Newsletter e fique a par de todas as notícias, sobre o desporto motorizado.

Newsletter