ITC 1996: quando a Opel e Manuel Reuter se tornaram ícones do motorsport

• A Opel comemora um dos maiores sucessos da sua história no motorsport, ao conquistar o World Touring Car Championship, não oficial, há 30 anos
• Manuel Reuter e o Opel Calibra V6 4×4 conquistam o seu lugar na história ao conquistarem o título no ITC
• O International Touring Car Championship (ITC) era, na altura, o campeonato de velocidade tecnicamente mais avançado do mundo

27 de outubro de 1996: um dia especial para a Opel. Naquele domingo, há 30 anos, o construtor de Rüsselsheim comemorou a vitória de Manuel Reuter no ITC – International Touring Car Championship (Campeonato Internacional de Carros de Turismo), no Brasil, ao volante do Opel Calibra V6 4×4. Juntamente com o título do Campeonato do Mundo de Ralis de 1982 conquistado por Walter Röhrl, este é o maior sucesso na história da Opel no motorsport, que começou no longínquo ano de 1899. Reuter, o seu Calibra preto e a Opel garantiram o seu lugar como ícones do desporto motorizado internacional com o seu triunfo no World Touring Car Championship (Campeonato do Mundo de Carros de Turismo) não oficial.

À época, o ITC, com os seus carros da Classe 1, era o campeonato de velocidade tecnicamente mais avançado do mundo, mesmo quando comparado com a Fórmula 1. A batalha entre os carros com tração integral da Opel e da Alfa Romeo contra os Mercedes de tração traseira produzia resultados cada vez mais elaborados. Os motores V6, limitados a 12.000 rpm, desenvolviam cerca de 520 cv, sendo que os veículos com tração integral dispunham de diferenciais controlados eletronicamente. A Mercedes respondeu com pesos ajustáveis hidraulicamente na parte inferior da carroçaria, com os quais podia influenciar a tração ao acelerar à saída das curvas. O ABS de competição, as cortinas variáveis nas asas dianteiras, os estabilizadores ajustáveis mesmo à velocidade máxima e as transmissões semiautomáticas, que eram tão rápidas como os motores altamente rotativos, eram totalmente de série. Por isso, os engenheiros desenvolveram sistemas modulares nos quais, em caso de danos no motor ou na transmissão, toda a parte dianteira era substituída em vez do componente individual. Soltavam-se os fechos de abertura rápida, desligava-se as cablagens elétricas, retiravam-se as tubagens, removia-se o módulo completo, colocava-se a nova parte dianteira e voltava-se a ligar tudo; se necessário, esta operação podia demorar menos de três minutos.

A luta entre a Alfa Romeo, a Mercedes-Benz e a Opel foi também imbatível em termos desportivos. O programa compreendia 26 corridas pontuáveis em 13 eventos disputados em três continentes. O ITC, que surgiu do DTM, teve eventos especiais na Alemanha, Inglaterra, Itália, Portugal, Finlândia, França, Brasil e Japão. Ao volante dos carros de 520 cv estavam pilotos de classe mundial como Nicola Larini, Alessandro Nannini, Giancarlo Fisichella, Christian Danner, Bernd Schneider, Dario Franchitti, Jan Magnussen, Kurt Thiim, Klaus Ludwig, Hans-Joachim Stuck, J.J. Lehto, bem como o piloto da Opel, Manuel Reuter, que acabou por sair vitorioso.

Mudanças de liderança: pura emoção na segunda metade da época

O desenrolar da época foi turbulento. A estrela da Opel, Reuter, assumiu a liderança da classificação com duas vitórias nas duas primeiras provas, em Hockenheim e Nürburgring, e manteve-a até setembro, altura em que foi atingido por uma pequena onda de azar. Após uma colisão em Nürburgring e uma avaria no motor em Magny-Cours, em que os comissários não conseguiram extinguir um incêndio que resultou na destruição total do Calibra, Nannini recuperou 70 pontos em quatro corridas. Schneider assumiu então a liderança da classificação após as duas corridas em Mugello.

Mas na final europeia do ITC, a maré mudou novamente. Tal como Nannini em Mugello, Schneider ficou “a zeros” em Hockenheim, enquanto Reuter somou 35 pontos. As suas formas de celebrar ainda hoje são recordadas. Depois da vitória na segunda corrida, parou o seu Calibra com as cores da Cliff a meio da reta da meta, saiu do carro e foi aclamado pelas dezenas de milhares de adeptos da Opel presentes no Motodrom, com lotação esgotada. Algo que lhe valeu uma pesada multa de 10.000 dólares da FIA. “Valeu a pena”, afirma ainda hoje, com um sorriso, o piloto natural de Mainz.

Com o forte desempenho na corrida em casa, Reuter concedeu a si próprio uma certa margem de manobra no campeonato. As últimas corridas no estrangeiro, em São Paulo (Brasil) e Suzuka (Japão), iriam decidir o título do ITC em 1996.

Emoção ainda antes da partida: caos na viagem para o Brasil

Para a Opel e, sobretudo, para Manuel Reuter, os dias agitados antes e durante o penúltimo fim de semana de corridas do ITC foram extremamente enervantes: o Calibra preto da Cliff já tinha caído de uma palete durante o procedimento de carga no aeroporto de Frankfurt. No entanto, os danos limitaram-se a dois amortecedores partidos e dois empenados. Mas, em retrospetiva, este incidente foi o prelúdio para um fim de semana de corridas espetacular, peculiar e, por vezes, arriscado em São Paulo.

A metrópole com dez milhões de habitantes revelou-se um ponto nevrálgico para a comitiva do ITC. Na viagem de cerca de 45 quilómetros entre o Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos e o Autódromo José Carlos Pace, nos arredores de Interlagos, a caravana de veículos de transporte do ITC foi alvo de disparos de um atirador furtivo num semáforo vermelho, em plena luz do dia. Os camionistas locais, no entanto, não hesitaram e ripostaram. Como a polícia também chegou rapidamente ao local – uma operação de rotina para as forças da ordem brasileiras –, o agressor fugiu em seguida, tendo ficado os camiões com apenas alguns buracos de balas e dois pneus furados. Além disso, na semana anterior, o herói local Tony Kanaan, que substituiu o austríaco Alexander Wurz como piloto convidado da Opel em São Paulo, foi duas vezes assaltado na rua, na sua cidade natal!

Corrida turbulenta à chuva em São Paulo: uma magnífica recuperação na luta pelo título

Para a Opel, o fim de semana de corridas também não foi totalmente isenta de percalços, especialmente para o candidato ao título, Manuel Reuter. Problemas com a afinação do Calibra e um acidente nos treinos livres de sexta-feira tinham deixado o líder do campeonato numa medíocre 12.ª posição na grelha de partida. Reuter travou um duelo com o adversário Bernd Schneider numa pista que se manteve húmida até ao final da primeira corrida, mas conseguiu ultrapassar o Mercedes e cruzou a linha de chegada em quarto lugar. Reuter pensava que estava no bom caminho.

Contudo, poucos minutos depois, a decisão do campeonato parecia ter sido adiada para a última prova da época, em Suzuka: após o fim da paragem de 20 minutos para reparações entre as duas corridas, o motor de arranque do Calibra-Cliff recusou-se a funcionar, pelo que Reuter teve de iniciar a segunda corrida a partir da pit lane. Entretanto, a chuva tinha-se intensificado, o que acabaria por favorecer o piloto da Opel. Quando os “espiões da Opel” repararam que Schneider, na esperança de uma melhoria das condições meteorológicas, tinha mandado equipar o seu carro de corrida com pneus slick quando ainda se encontrava na grelha de partida, a equipa de Rüsselsheim decidiu equipar o Calibra-Cliff também com pneus slick. “Estávamos na liderança do campeonato, por isso quisemos fazer o mesmo que o Bernd, por uma questão de segurança”, recorda Manuel Reuter.

Enquanto Schneider se debatia inicialmente com a falta de aderência devido à sua infeliz escolha de pneus e só conseguiu recuperar na segunda metade da corrida, numa pista que começava a secar, Reuter foi calmamente ganhando posições com o seu carro de tração integral e terminou novamente em quarto lugar. “No início foi bastante perigoso, tive de ir duas vezes pela gravilha”, disse o piloto oficial da Opel. “Mas, ao longo da corrida, a nossa escolha de pneus revelou-se acertada.” Manuel Reuter demorou alguns instantes a perceber o que acabara de fazer: “Quando a minha equipa exibiu a palavra ‘Champ’ no ecrã do ‘cockpit’ ao cruzar a linha de chegada, perguntei primeiro se tinham a certeza e se não se tinham enganado nos cálculos. Não conseguia acreditar que tínhamos conquistado o último título do ITC da história neste fim de semana cheio de altos e baixos.”

Para a história do motorsport: 1996 foi um ano dourado para Manuel Reuter e a Opel

Foi a recompensa por anos de trabalho árduo num ambiente extremamente exigente do ponto de vista técnico. “O nosso maior problema era a consistência”, recorda Reuter. “Ao longo da época de 1995, percebemos que o nosso carro tinha um nível excesso de tecnologia complexa. Os bons resultados surgiram com a correta adaptação do Calibra.” Em Magny-Cours, Reuter ficou em segundo lugar; Ludwig comemorou uma dupla vitória em Hockenheim. Para 1996, o Calibra recebeu um novo e potente motor. A nova caixa de velocidades semiautomática da Williams só foi integrada quando o seu funcionamento passou a ser perfeito. A Opel estava bem preparada para 1996.

Reuter recorda: “Conseguimos construir uma boa vantagem na primeira metade da época. Depois, tornou-se mais difícil. A partir do terceiro fim de semana de corridas, no Estoril, o meu carro tinha quase sempre o peso máximo de classificação no carro e, mesmo assim, terminei frequentemente entre os cinco primeiros. O Schneider, no Mercedes, e o Nannini, no Alfa, tiveram mais dificuldades. Enquanto os outros construtores apostaram, desde cedo, num ou dois pilotos como pontas de lança, na Opel podia conduzir livremente. Por isso, tive de me impor perante sete colegas de equipa muito fortes. Por outro lado, também nos motivávamos uns aos outros.”

1996 foi um ponto alto na grande carreira de Manuel Reuter, que, para além do título no ITC, também celebrou a sua segunda vitória à geral nas 24 Horas de Le Mans. “O ITC merecia continuar a existir”, afirma a estrela da Opel, confessando alguma melancolia. “O período da Classe 1 foi uma época especial para todos os que a viveram, tanto para nós, pilotos, como para os técnicos e os adeptos. Foi um momento inesquecível que tive a oportunidade de viver com a Opel naquela altura. E 1996 foi realmente um ano dourado!”

Enviar Comentário

Scroll to Top

Newsletter

Subscreva a Nossa Newsletter e fique a par de todas as notícias, sobre o desporto motorizado.

Newsletter