Lousada quase a acender as luzes para uma noite histórica no Campeonato da Europa de Ralicross

  • Primeiras finais do Europeu disputadas este sábado sob iluminação artificial colocam pilotos e equipas perante um desafio diferente;
  • Temperatura da pista, pneus, referências visuais e afinações dos carros estão entre as variáveis a considerar à medida que anoitece;
  • Pilotos das diferentes categorias explicam o que muda quando a competição passa do dia para a noite.

O sol ainda brilhava quando começaram as primeiras corridas deste sábado, mas será já sob iluminação artificial que serão encontrados os primeiros vencedores do fim de semana em Lousada. Pela primeira vez na história do Campeonato da Europa FIA de Ralicross, as decisões de uma jornada vão acontecer à noite.

E correr à noite não significa apenas acender os projetores.

À medida que o sol desaparece e a temperatura baixa, mudam as condições da pista e as referências visuais dos pilotos. Para algumas equipas, a noite implica também rever parâmetros como as pressões dos pneus ou determinadas afinações do carro; para outras, as alterações são mínimas. A forma como pilotos e equipas se adaptam às novas condições será mais uma das variáveis a acompanhar até às finais.

É precisamente esse lado menos visível da inédita experiência noturna que vários pilotos das diferentes categorias do europeu explicam antes das primeiras decisões deste sábado.

O que muda do dia para a noite?

Para Diego Martínez Gonzalez, piloto espanhol que ocupa o terceiro lugar no Europeu de RX5, a experiência começou já nos treinos de sexta-feira e trouxe sensações completamente novas. “Nunca tinha guiado à noite e é uma sensação bastante estranha, porque estou habituado a ter sempre luz e desta vez foi diferente. Gostei muito. Ontem guiei ao pôr do sol, na golden hour, e foi bastante bonito. Por isso, sim, fico-me pela noite”, afirma.

Mas há também diferenças técnicas. Com a alteração das temperaturas, há parâmetros que a equipa tem de considerar na preparação do carro. “O carro sofre menos e, obviamente, temos de fazer diferentes afinações no carro, no setup, nas suspensões. Temos também de corrigir as pressões dos pneus, entre outras variáveis”, explica o espanhol.

Também Filip Melon, piloto polaco que ocupa o segundo lugar na categoria RX4 ao volante de um Peugeot 206, experimentou pela primeira vez em Lousada uma corrida sob iluminação artificial. E a aprovação foi imediata.

“Prefiro a noite. É a minha primeira vez, mas gosto mesmo muito. Gosto muito da pista e, à noite, temos temperaturas mais baixas. É diferente, mas adoro.”

Quando mudam as referências

Se a descida das temperaturas coloca novas variáveis nas contas das equipas, para os pilotos há outro fator particularmente importante: as referências visuais.

O francês Julien Meunier, segundo classificado do Europeu de RX3, reconhece que a condução muda quando desaparece a luz natural. “Há uma pequena diferença ao nível da condução. É um pouco mais difícil porque perdemos muitas das nossas referências em relação ao dia e a pista está muito mais fria, porque a temperatura desce bastante. Temos de nos habituar.”

Mas nada que retire entusiasmo ao piloto do Audi A1. “É igual para toda a gente, mas acrescenta um pouco de emoção, um pouco de ‘pimenta’. Gostamos disso. Muda bastante e eu adoro.”

Na RX1, o sueco Martin Enlund chama a atenção para outro pormenor que ganha importância quando se corre sob iluminação artificial: as luzes dos próprios carros. “Por vezes é difícil ver. O mais complicado é a luz de chuva [luz traseira vermelha obrigatória nos carros de competição]. É tão brilhante quando estamos atrás de outro carro que é isso que mais incomoda durante a noite”, explica.

Ainda assim, entre o calor sentido durante o dia em Lousada e as condições mais amenas da noite, Enlund também não hesita na escolha: “Aqui em Portugal prefiro a noite, porque está um bocadinho mais fresco lá fora.

Para a portuguesa Rafaela Barbosa, a fazer a sua estreia na categoria RX3, a principal diferença está na experiência dentro do próprio habitáculo.

“A experiência é diferente. Faz-me um bocadinho de confusão porque dentro do carro não tenho luzes absolutamente nenhumas. Se precisar de carregar num botão qualquer, vou ficar ali um bocadinho perdida, mas é uma experiência engraçada, sem dúvida.”

Apesar da novidade, a piloto portuguesa não considera que a noite altere os principais pontos de referência da condução. “Dentro do carro fica mais escuro, mas os pontos de travagem e os pontos de aceleração são sempre os mesmos.”

O’Donovan: “É como se estivesses num túnel”

Voltando à categoria rainha, Patrick O’Donovan não tem dúvidas sobre a sua preferência. O piloto irlandês da RX1 gosta de correr à noite e encontra na iluminação artificial uma atmosfera muito particular.

“Prefiro a noite. Acho que é simplesmente mais fixe. Consegues ver os discos de travão a brilhar, o escape e, sob os projetores, é como se tivesses bolsas de luz. Dá uma sensação de estares num túnel. É incrível.”

Mais do que dificultar a condução, O’Donovan considera que essa sensação acaba por favorecer a concentração. “Não há mais nada para além daquilo e acaba por ser mais fácil estar focado.”

Ao contrário de outros pilotos, o irlandês não antecipa alterações significativas na afinação do carro com a chegada da noite. “A condução é quase a mesma e a afinação do carro também”.  A pressão dos pneus merece, ainda assim, alguma atenção. “A pressão muda um bocadinho, mas, no geral, acaba por ser bastante semelhante”, explica.

O’Donovan, que foi o segundo mais rápido nas qualificações desta tarde, sendo apenas batido pelo sueco Johan Kristoffersson, chega às decisões deste sábado também com uma leitura particular da corrida na RX1.

Com Andreas Bakkerud e Johan Kristoffersson envolvidos na luta pelo título europeu, o irlandês acredita que os restantes pilotos poderão ter maior liberdade para arriscar. “Há uma grande luta pelo título entre o Andreas e o Johan e acho que estão a jogar de forma um pouco mais segura. Isso significa que alguns dos outros pilotos, que não estão nessa luta, podem arriscar um pouco mais e forçar mais. Estamos a divertir-nos e a tentar perceber onde está o limite. Veremos o que a noite nos reserva…”

Entre a prudência de quem faz contas ao título e a maior liberdade de quem procura uma vitória, a noite acrescenta assim mais uma variável a uma RX1 onde cada posição pode fazer a diferença. Para já, um furo de Andreas Bakkerud na última manga de qualificação deixou o norueguês e líder do Mundial numa posição mais difícil para as decisivas finais.

Agora é a sério: chegam as primeiras finais

Cumpridas as qualificações e numa altura em que faltam ainda disputar os quartos de final e as meias-finais, a primeira das duas jornadas do Europeu em Lousada caminha este sábado para o momento das decisões.

E será à noite que tudo se vai decidir.

As finais arrancam às 21h07, numa sequência praticamente sem interrupções que começa com a 2RM e prossegue com as decisões da RX5, RX4 e RX3. A grande final da Euro RX1, categoria rainha do Campeonato, está marcada para as 21h40, antes do pódio que encerrará a jornada.

Será o culminar de mais de nove horas de competição e de um sábado que ficará associado a um marco na história da modalidade: pela primeira vez, os vencedores de uma jornada do Campeonato da Europa FIA de Ralicross serão encontrados sob as luzes da noite.

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