ENTREVISTA: Não há travão à inovação devido à regulação – investigadora Virginia Dignum

 A investigadora portuguesa Virginia Dignum argumenta, em entrevista à Lusa, que a regulação não trava a inovação e que os governos estão paralisados pela narrativa errónea das ‘big tech’ de que a IA dispensa de regras.

“Não precisamos de destravar porque não há travão nenhum à inovação devido à regulação, a regulação não trava, a regulação bem feita incentiva” e “dá a confiança tanto aos utilizadores como aos desenvolvedores do que o que estão a fazer é relevante, é importante e é necessário”, defende a diretora do Laboratório de Políticas de IA [director AI Policy Lab] da Universidade de Umeå, Suécia.

A académica, que lançou recentemente o livro The AI Paradox [O paradoxo da IA], refere, em primeiro lugar, que a regulação não é apenas através da legislação, “há muitas outras maneiras de regular que não são necessariamente leis nacionais”.

Segundo, “leis não são só para proibir coisas, as leis normalmente são para indicar direções e as direções que a lei diz não têm, em princípio, nada a ver com a capacidade técnica de um sistema”, aponta, dando o exemplo da indústria automóvel.

O setor está a desenvolver “técnicas automóveis que permitem um carro andar a velocidades à volta de 300 quilómetros (km) por hora” e a legislação ou a regulação diz que se estiver numa zona urbana tem um limite.

“Ou seja, a regulação tem a ver com a utilização da tecnologia num contexto específico e a tecnologia pode ser desenvolvida de várias maneiras e com mais capacidades do que aquilo que a regulação diz”, salienta Virginia Dignum, que trabalha com inteligência artificial (IA) há várias décadas.

Aliás, “se os carros não pudessem andar a mais do que 30 km por hora não fazia sentido fazer leis a dizer que é proibido andar a mais do que 50 km por hora”.

Ou seja, “o desenvolvimento da inteligência artificial e das capacidades técnicas e analíticas dos sistemas podem continuar a ser desenvolvidas e devem continuar a ser desenvolvidas para se perceber e para se determinar quais é que são os limites, o que é que pode fazer, o que é que não pode fazer, como é que se pode fazer melhor, como é que se pode fazer de outra maneira”, prossegue Virginia Dignum.

“E ao mesmo tempo podemos regular à vontade dentro dos contextos” em que a utilização necessita de confiança dos que estão a utilizar, diz.

Agora, “o grande problema desse paradoxo da regulação é que os nossos políticos, os nossos ‘policymakers’ [decisores] no mundo todo não são capazes de entender esta diferença. Porquê? Não sei”, aponta.

Virginia Dignum e muitos dos seus colegas têm falado, em vários fóruns, para esclarecer este tema de uma forma clara.

“Mas o poder da ‘big tech’ [grandes tecnológicas] é tão grande que os nossos políticos estão convencidos de que qualquer processo de regulação vai dar cabo da inovação”, lamenta.

A investigadora sublinha que “não há nenhum outro setor industrial em que não haja regulação”.

Em todos os outros setores industriais, “desde a medicina e dos medicamentos aos aviões, às infraestruturas de eletricidade e de comunicações e o que quer que seja, está tudo extremamente regulado”, reforça.

“O desenvolvimento e a inovação e a capacidade do setor seria impossível de realizar se não houvesse regulação”, defende a investidora.

Por isso, “a ideia de que a IA é uma coisa diferente e que não precisa e não pode ter regulação não faz sentido nenhum e não faz sentido principalmente da maneira como os governos estão completamente paralisados pela força e pelo poder de uma narrativa errada e errónea da ‘big tech'”, remata Virginia Dignum.

Lusa

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