À imagem da BYD, que alugou a Opéra de Paris para um espetáculo de grande dimensão, as marcas automóveis chinesas estão a entrar sem complexos na Europa, apoiadas em tecnologia que os europeus tentam replicar, numa inversão de papéis.
Em grande parte desconhecidas na Europa há três anos, marcas como BYD, MG, Chery, Geely, Leapmotor, Jaecoo e Xpeng atingiram em conjunto 9% das vendas na Europa em março, e mesmo 14% no segmento dos veículos elétricos, segundo a consultora Dataforce – o dobro face ao ano anterior. Alguns modelos já figuram entre os mais vendidos em países como Itália, Espanha ou Reino Unido.
O seu sucesso está a abalar construtores europeus fragilizados por um mercado interno em queda desde 2019, e surpreendidos pelo plano da União Europeia para atingir 90% de carros elétricos até 2035.
Em contrapartida, a política europeia acabou por beneficiar os fabricantes chineses, muito mais avançados no setor elétrico e apoiados pelo Estado nos seus mercados de origem.
“A Europa, um dos poucos grandes mercados mundiais, é um destino natural para os construtores chineses. O plano da UE para o carro elétrico foi praticamente feito para eles, abrindo-lhes o mercado europeu em muito pouco tempo”, resumiu Jamel Taganza, responsável da consultora Inovev, citado pela agência France Presse.
A exportação é ainda mais necessária para estes fabricantes do que para os europeus, dado o excesso de capacidade: as fábricas chinesas operam a cerca de 50% do seu potencial, face a cerca de 60% na Europa, sublinhou Alexandre Marian, analista da AlixPartners, citado pela AFP.
“Os pontos fortes dos construtores chineses não se limitam aos custos laborais, passam também pela inovação”, disse Michael Foundoukidis, analista automóvel da Oddo. “Na China, oferecem hoje veículos duas vezes mais eficientes por metade do preço” face aos europeus, explicou.
O próximo passo é produzir localmente. “Todos os construtores consideram que, para se implantarem num mercado, é mais simples produzir no local, evitando tarifas aduaneiras e problemas logísticos”, afirmou Lionel French Keogh, diretor comercial da Chery em França, que pretende fabricar na Europa um pequeno veículo elétrico urbano.
“Se quiserem ultrapassar de forma sustentável os 10% de quota de mercado na Europa, não terão outra escolha senão montar veículos no continente”, acrescentou o analista da Oddo.
As barreiras aduaneiras impostas pela União Europeia em 2024 aos veículos elétricos importados reforçam esta tendência.
A BYD vai abrir uma fábrica na Hungria. A Leapmotor, parceira da Stellantis, prevê produzir dois modelos numa fábrica do grupo em Saragoça, Espanha.
Segundo a imprensa, a Stellantis equaciona também produzir modelos Leapmotor sob a marca Opel em Espanha. Já a Xpeng monta veículos na Áustria.
Para responder, os construtores europeus estão a adotar a estratégia chinesa dos anos 2000: aprender com o concorrente através de parcerias. Exemplos incluem a Stellantis com a Leapmotor e a Volkswagen com a Xpeng, que lançaram um primeiro modelo elétrico conjunto para o mercado chinês. Outro caso é a Renault, que se aliou à Geely no desenvolvimento de motores térmicos e híbridos.
Lusa
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